Colônia belga em Ilhota (SC)

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Colônia Belga Ilhota em Santa Catarina

Os mais antigos registros de colonização de Ilhota (SC) datam de 31 de março de 1842, quando iniciaram uma viagem de reconhecimento dos rios Itajaí - Açu e Itajaí Mirim, 02 belgas, o engenheiro e pesquisador Charles Maximiliano Luiz Van Lede, Joseph Philippe Fontaine, o geólogo francês Guilherme Bouliech, e como guia o escrivão policial José Alves de Almeida.

Para entender qual a razão e o que se passou na Colônia Belga em Santa Catarina, é preciso contextualizar os cenários econômico e social da segunda metade do século XIX. A Europa vivia uma grande crise econômica em função da Revolução Industrial que provocou desemprego em massa, fome e o empobrecimento da população rural.

O Brasil, com pouco mais de 20 anos de independência, despontava no cenário pela abundância de terras férteis e riquezas em minérios, principalmente carvão, ferro e ouro. No entanto, a mão de obra escrava havia se tornado cara e escassa em função do movimento abolicionista e da proibição do seu tráfego a partir de 1845. A solução era importar trabalhadores da Europa. As fazendas de café de São Paulo e de outros estados principalmente no Sudeste do país passaram a atrair a mão de obra europeia em troca do sonho dos agricultores cultivarem em seu próprio pedaço de terra. O governo brasileiro, por sua vez, tinha interesse de povoar o Sul que estava sendo alvo de disputas e separações, com o que aconteceu em 1825, quando Uruguai se tornou uma nação independente.

Incentivo

Depois da implantação da política de defesa e ocupação contra a invasão do seu litoral e Sul, o governo brasileiro passou a incentivar a formação de núcleos colonizadores. Em Santa Catarina, embora tardia, várias regiões passaram a receber imigrantes: São Pedro de Alcântara, Vale do Rio Tijucas, Vale do Itajaí e as margens do rio Itajaí-Mirim. A região Sul era o alvo principal das empresas colonizadoras por causa das terras serem inoculadas, o clima semelhante ao europeu e a possibilidade de desenvolver outras culturas em substituição a cana-de-açúcar em franca decadência no Brasil.

Na região que mais tarde viria a ser ocupada pelos belgas, havia um pequeno povoado, com pouco mais de 1.100 habitantes, fundado por volta de 1820. As terras eram praticamente todas de posse do Coronel Agostinho Alves Ramos. Além destes habitantes, havia muitos índios, ou bugres como eram conhecidos, nas matas. Os índios não tinham local fixo. Na medida em que os imigrantes foram chegando e se estabelecendo nas colônias, os silvícolas foram sendo expulsos para o interior e, por fim, dizimados pelos caçadores.

Um belga em terras tupiniquins

Personagem central da colonização belga em Santa Catarina, Charles Maximilien Louis van Lede (Bruges, 20/05/1801 – Bruxelas, 19/07/1875), para alguns, é vilão, para outros herói. Historiadores e pesquisadores ainda procuram por essa resposta.

O que todos têm certeza é que Van Lede foi um empreendedor com espírito aventureiro. “Cada homem é filho do seu tempo”, afirma a historiadora Elaine Cristina de Souza. Ela lembra a importância de Van Lede para o desenvolvimento do Vale. “Foi ele (Van Lede) que abriu as portas para a colonização e mapeou o Vale. O Dr. Blumenau só chegaria à região oito anos depois”. Nascido em 1801, na região de Bruges, Van Lede estudou em Paris, cumpriu serviço militar na Espanha, como um soldado mercenário que rebelou-se contra a tirania absoluta do rei Fernando VII. Em 1830, com a independência da Bélgica, retornou ao país para ser recrutado como oficial de engenharia. Enviado em missão militar ao México, Van Lede viajou as Américas como técnico em minas e tesouros ocultos. Esteve na Argentina e depois no Chile, onde trabalhou para o governo daquele país como engenheiro de construção de pontes, estradas e portos.

Em 1842, já a serviço da Societé Commercial de Bruges e proprietário da Compagine belge-brésilienne de Colonisation, Van Lede desembarcou no Brasil. A sua missão era avaliar o solo e as florestas catarinenses, para a exploração de ferro, carvão e outros minérios. O belga foi o primeiro a realizar uma viagem de cunho científico à parte navegável do Itajaí-Açu. Na viagem, alimentou a ideia de um grande projeto colonizador, com a finalidade de explorar a mão de obra.

Van Lede Mapa Rio Itajahi-Mirim

"Mappa chorographica da provincia de Stª. Catarina, parte da Pa. de São Paulo e da Pa. de Rio Grande do Sul e parte da república do Paraguay", autor: Lede, Charles van (Charles Maximilien Louis van), 1801-1875 - Fontehttp://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart5...

Van Lede trouxe o primeiro grupo belgas em 1844, permanecendo no Brasil pouco tempo. Retornou para Bélgica em maio de 1845, deixando a colônia sob a direção de Joseph Philippe Fontaine, e nunca mais retornou. Na Bélgica, tentou sem sucesso ser eleito nas eleições de 1848 para a região de Bruges. Van Lede faleceu em 1875, deixando suas terras no Brasil como doação ao Hospital de Bruges.

Conflitos marcaram o início da colônia

Após uma expedição entre os rios Itajaí-mirim e Itajaí-açu que levou Van Lede até a região do ribeirão Itopava optam por estabelecer colônia na região de Ilhota "uma pequena ilha no rio". O solo era propício para a agricultura e havia a possibilidade de exploração de minérios.
Em 6 de julho de 1844, após adaptações ao projeto e com dificuldades de ganhar terras da província catarinense, ele não teve o seu contrato ratificado pelo governo brasileiro, que Van Lede atribuiu a negativa do De Jaeger, chargée d'affaires da Bélgica no Rio de Janeiros, Charles Maximiliano Luiz Van Lede e os irmãos Lebon, adquiriram de uma área de 2.150 ha. do Cura Padre Rodrigues, no local chamado Prainha; em 21 de novembro de 1844 adquiriram uma área de 1.200 ha. de Dona Rita Luisa Aranha e em 2 de janeiro de 1845 compraram as terras do tenente coronel Henrique Flores uma área de 6.250 ha.

Carlos Ficker

Em agosto de 1844, 114 imigrantes belgas da região de Bruges, de origem Flamenga, partiram do Porto de Ostende com contrato firmado para cultivar nas terras da futura colônia a 3 francos por dia de serviço. No site http://coloniabelga.blogspot.com.br/2011/10/lista-de-passageiros-do-bridge-belga_31.html pode ser encontrada a cópia do original da lista de embarque dos imigrantes belgas à bordo do bridge Jan Van Eyck, que partiram do porto de Ostende em 24 de agosto de 1844.

Chegada Van Eyck no RJ 18441031Segundo o jornal "Diário do Rio de Janeiro" de 2.11.1844, cheagaram no dia 31 de outubro de 1844 no porto do Rio de Janeiro só 109 colonos. Lá já estava os esperando Charles van Lede quem chegou no RJ, vindo de SC, em 25 de outubro de 1844.

O mesmo barco, Jan Van Eyck, saiu no dia 9 de novembro de 1844 do Rio de Janeiro com destinação Santa Catarina.

Chegaram no dia 17 de novembro de 1844 em Desterro (atual Florianópolis) em Santa Catarina, onde 107 colonos foram recebido pelo Consul da Bélgica, Sr. Charles Sheridan, além de Charles Van Lede e sua esposa.

"Sahindo de Ostende em Agosto de 1844 com a intenção de formar huma empreza commercial na Provincia de Santa Catharina, e confiando na convenção feita entre o Ministerio Brazileiro e Mr Le Chevalier Van Lede,... e aqui chegando soubemos, que o contracto não havia ainda sido approvado pela Assemblea Geral Legislativa. Mr Van Lede comprou humas terras." relata Gustave Lebon.

(Relato de 1850, do Ministério dos Negócios Estrangeiros ao presidente da província do Rio de Janeiro).

Os problemas de Van Lede começaram antes de chegar ao Brasil. Na travessia oceânica morreram cinco imigrantes. Dois operários mecânicos desertaram do navio, empregando-se nos estaleiros navais na cidade de Rio. E logo depois da chegada em Desterro, começaram as divergências entre Van Lede e Louis Christia[e]n[s], de Gant, que, não se conformando com o projeto de cultivar terras que não fossem de sua propriedade, separou-se de Van Lede com mais 16 imigrantes, entre estes um negociante abastado de nome C. Van der Heyden. Este grupo estabeleceu-se em terras adquiridas no hoje município de São José. Dessa forma, Van Lede não conseguiria cumprir a exigência contratual de trazer 100 imigrantes. Apenas 90 colonos belgas foram transportados, em iate costeiro até uma pequena ilha, que se hoje existisse ficaria no meio do rio Itajaí - Açu exatamente defronte à igreja Matriz São Pio X. A ilha que originou o nome da cidade desapareceu depois da elevação do nível do rio, causando por duas grandes enchentes, em 1880 e 1911. Em 27 de novembro de 1844 foi fundada a Colônia Belga. Algumas árvores foram derrubadas para que fosse construído um enorme barracão onde as famílias passaram os primeiros dias na nova terra. O reconhecimento oficial da colônia belga catarinense ocorreu em 28 de julho de 1845 com a aprovação do projeto pela Câmara de Deputados.

SOBRENOMES DOS IMIGRANTES BELGAS

1845 e 1846

Fontaine, Denis Isler, Plettincks, Crabeels, Deprez, Van der Gucht, Walthez, Hollenvoet, De Vreker, Van Heicke, Christiaens, Velghe, de Waele, de Smedt, Beyts, Milcamps, Maebe, Van der Heyde, Plancke, Degand, Maes, de Sanders, Himpens, Devreker, Castelein, Van der Busche, Buelens, Heytens, Lebon, Brackeveld, Wismer, Gevaert, Van der Vrecken, Vilain, de Smet, Lecluyse, Mussche, Coucke, Busso, Verlinden, Devleeschower, De Rycke. Van Hamme, De Ny's, de Gandt, Gillis, de Neve, Van Rie, Claeys, Opstaele, Ego, Schloppal, Sijs, Vanysere, Meuwens, Loens, Gregoire, Kamer, Van Daele, Hostyn, Van Steenhuyze, De Coninck, Houttekees, Neirinck, Lievens, Speckaert, Ranwez, De Vreese, Paul, Praet

Fonte: http://coloniabelga.blogspot.com.br/

 

Os primeiros imigrantes

Philipe Fontaine, 43 anos (diretor da Colônia) - Jean Nicolas Denis Isler, 46 anos (sub diretor) - Pierre Plettincks, 43 anos (médico) - Emmeric Crebeels, 48 anos (alfaiate) - Pierre Deprez, 42 anos (particular) - Leonard Vandergucht, 48 anos (agricultor) - François Walthez, 48 anos (particular) - François Hollenvoet, 36 anos (particular) - Reine de Vrekc, 36 anos (dona de casa) - Jean Van Heicke, 46 anos (agricultor) - Louis Christiaens, 28 anos (negociante) - Pierre Veighe, 36 anos (jardineiro) - Charles de Waele, 37 anos (ourives) - François de Smedt, 40 anos (agricultor) - François Beyts, 44 anos (agricultor) - Maxem Milcamps, 20 anos (particular) - Louis Maebe, 27 anos (carpinteiro) - Hypolite V. Heyde, 23 anos (capitalista) - Henri Plancke, 42 anos (agricultor) - Leonard Degand, 52 anos (agricultor) - Eugene Maes, 43 anos (agricultor) - Ignace de Sanders, 42 anos (agricultor) - Gregoire Himpens, 40 anos (agricultor) - Henri Devreker, 29 anos (carpinteiro) - Charles Castelein, 31 anos (agricultor) - Louis Van der Busche, 32 anos (arador) - Jean Baptiste Buelens, 29 anos (pedreiro) - Pierre Heytens, 38 anos (agricultor) - Gustave Lebon, 26 anos (particular) - Pierre Brackeveld, 42 anos (agricultor) - Henri Wismer,40 anos (agricultor) - Ange Gevaet, 47 anos (agricultor) - E. François Milcamp, 22 anos (particular) - Jean Van de Vrecken, 30 anos (agricultor) - Jean Baptiste Vilain, 31 anos - (agricultor) - Edouard de Smet, 22 anos (trabalhador) - Bernard Lecluyse, 21 anos (barbeiro) - Judoc Mussche, 23 anos (carpinteiro) - Michel Coucke, 21 anos (agricultor) - Romain Busso, 17 anos (estudante) - Martin Verlinden, 30 anos (trabalhador) - Auguste Lebon, 22 anos (particular) - Charles Devleeschower, 36 anos (serrador de madeira) - Gerard De Rycke, 49 anos (jardineiro) - Jean B. Van Hamme, 39 anos (caçador) - Benoit De Ny’s, 23 anos (particular) - Charles de Gandt, 56 anos (proprirtário) - Ange Gillis, 18 anos (trabalhador) - Ange de Neve, 31 anos (trabalhador) - Bernard Van Rie, 47 anos (trabalhador) - Bruno Claeys, 32 anos (trabalhador) - Charles Opstaele, 22 anos (agricultor) - Honoré Ego, 30 anos (agricultor) - Philippe Deprez, 29 anos (agricultor) - Leonard Maes, 31 anos (agricultor) - Charles Schloppal, 22 anos (vive de rendas) - Pierre Sijs, 17 anos (carpinteiro) - Clement Vanysere, 21 anos (agricultor) - François Meuwens, 26 anos (fundidor de ouro) - Joseph Loens, 21 anos (ourives) - Emile De Gandt, 19 anos (particular)

Fonte: http://www.jornalmetas.com.br/polopoly_fs/1.1682965.1437397273!/arquivos/14373972985950.pdf

Ainda assim, ele não desanimou e iniciou a construção das primeiras 16 casas de madeira que deram origem a aldeia de Ilhota. Em fevereiro de 1845, Van Lede viajou para o Rio de Janeiro e, em maio do mesmo ano, embarcou de volta para a Bélgica, deixando a Colônia aos cuidados de Philippe Fontaine. Em 28 de julho de 1845, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei de criação da Colônia. No entanto, o clima já era ruim e as desavenças entre a chefia e os trabalhadores só cresceram.

"No mez de Novembro de 1845 os colonos revoltarão-se, e de modo algum quizerão continuar a observa seus contracto. As justiças de Santa Catharina os condemnarão á dois annos de prisão, que preferirão soffrer á submetter-se ao engajamento." - Gustave Lebon.

(Relato de 1850, do Ministério dos Negócios Estrangeiros ao presidente da província do Rio de Janeiro).

Segundo o jornal "Le Messager de Gand" de 24.05.1846, no dia 21 de maio de 1846, o brigue "l'Adèle" com capitão Cornelissen saiu do porto de Antuérpia rumou a Santa Catarina com carga e 52 emigrantes. Ao bordo era Pierre Van Loo da cidade de Gant acumulada de um capital de 10.000 francos, que contratou 16 trabalhadores rurais e agricultores. Estabeleceu-se com os seus colonos em anexo a colônia de Van Lede onde - segundo uma fonte - introduzam o cultivo de linho no Brasil.

NOMES DOS IMIGRANTES BELGAS

Navio Adèle - 30.05.1846

Gregoire Florimond, Kamer Anne e Jean, Van Daele Charles Louis e Ivo, Hostyn Felix e Luis, Praet François, Houttekees Charles, Neirinck Pierre, Ranwez Engilbert D., De Vreese Marie Christine, De Coninck Leo, esposa e 03 filhos, e Paul Frederic.
Fonte: A cópia da lista de embarque dos imigrantes belgas encontra-se em http://coloniabelga.blogspot.com.br/2011/10/lista-de-passageiros-do-navio-belga.html.

O cotidiano dos colonos belgas ficou marcado por uma série de conflitos, trabalho e dificuldades de adaptação. Aprenderam a pescar, caçar, derrubar árvores, construir casas, engenhos de fabricação de farinha, açúcar, e principalmente reivindicar seus direitos. De acordo com as historiadoras Ana Luiz Mette e Elaine Cristina de Souza, no livro Ilhota - Encanto dos Belgas no Vale do Grande Rio - as discórdias iam desde o descontentamento pelo pagamento maior pelos serviços desmatamento a colonos brasileiros do que aos belgas até escassez de mantimentos. Eram frequentes as rebeliões na colônia, por isso os belgas foram taxados de arruaceiros, brigões e malandros. Gonçalves, neto de uma jovem belga, descreve as condições de vida dos imigrantes: “Se por um lado, viver na Europa estava difícil em virtude dos vários conflitos e a pobreza que assolava as famílias europeias, viver na cocanha brasileira, também não era tarefa fácil nas primeiras décadas de colonização, onde as condições climáticas, os animais selvagens e serpentes espalhavam-se por toda a região”.

Diante do ambiente hostil, Fontaine também decidiu retornar à Bélgica, deixando os imigrantes sem rumo. Antes de partir, destruiu todos os documentos e ainda exigiu que os colonos assinassem um termo confirmando terem recebido as terras e toda a infraestrutura necessária para se estabelecerem. Nessa época, a colônia era formada por 63 pessoas. A direção da Colônia passou então para Gustave Lebon, que também teria desistido meses depois. A embaixada da Bélgica também negou ajuda.

Ilhota planta da colonia belga

SOBRENOMES DOS IMIGRANTES BELGAS

julho e setembro 1847

As família de Ange Gevaert (lote D 6), Leon van der Gucht (3 filhos - lote D 7), Ignace (Ignaz) de Sanders (5 filhos - lote D 12), Leonard de Gand (3 filhos - lote 8), François de Smet (lote D 9), Gregorio Himpens (2 filhos - lote D 10), Charles Casteleyn (2 filhos - lote D 11), Charles Van Dale (lote D 5), J. B. Villain, F. Planke e De Coninck.

Os solteiros: Eugene Maes, Leonard Maes, Emmeric Grabeels, Engelbert Gevaert, Jean Van Heycke, Michael Conicke, Louis Busche, Louis Marbe, Charles Opstale, Gustave Lebon, J. B. Bulens, Ivo (J. ?) Van Dale, Speckart, E. Ranwez, Jean Verdueren (lote D 4), Louis Ostyn e Pierre Nerrinck.

Lote C, ocupado por Pierre Van Loo e seu colonos Leo De Coninck e família (lote 3 bis)

Lote B, explorada por Gustave Lebon como representante de Hypolite Van Heyden.

Lote A, explorada por Gustave Lebon em pessoa.

Fonte: Carlos Ficker, p. 27-28 (total 63 pessoas em setembro) e p. 37

A vida na colônia só prosperou graças ao trabalho dos imigrantes. Em 1874, um fato novo tirou o sossego dos moradores. Os herdeiros de Van Lede reivindicaram a posse das terras. O Cônsul da Bélgica no Desterro, Henry Schutel, também colaborou para o conflito ao valer-se de uma procuração de Van Lede para negociar alguns terrenos. Não bastasse estes dois fatos, em 1889 o Hospital de Bruges requereu parte das terras da colônia deixadas por Van Lede em testamento. Quando o procurador Van Dal iniciou o trabalhos de medição das terras, mais de 80 moradores de Ilhota e das vizinhanças, todos armados, o agrediram, apoderaram-se de seus instrumentos e o expulsaram de Ilhota. O Ministério da Bélgica pronunciou-se a favor dos colonos e a pendência foi encerrada.

O que resta ainda da colônia Belga em Santa Catarina?

Ilhota Familia belga Maes - De Coninck

Foto da familia belga Felício Ricardo Maes e Otilia De Coninck (sentados) e seus filhos
Felício era filho de Ricardo Eugênio Maes (nascido na Bélgica e emigrado ainda menino com seu pai Eugen Maes) e Eugênia Brackeveld Maes.
Otilia era filha de Constant De Coninck (nascido na Bélgica e emigrado ainda menino com seu pai Leo De Coninck) e Maria Machado Coninck.

Fonte: http://coloniabelga.blogspot.com.br

Muito pouco, escreve Patrick Maselis. "Philippe Fontaine, em 1847, queimou todos os documentos relacionados com a colônia. Depois disso, aquela área sofreu ainda várias cheias, entre outras, a de 1911. A Igreja construída em 1845 por Van Lede superou tudo isso. Infelizmente, por volta de 1925, ardeu completamente. Restam poucos vestígios visíveis, mas nesta zona do Brasil os belgas pertencem ao passado mas não ao olvido. As peripécias de Charles Van Lede e da Compagnie belge-brésilienne de colonisation ainda são conhecidos aqui e ali. A frase de abertura do folheto publicitário da pequena cidade de Ilhota faz referência às suas raízes Belgas. Alguns nomes de ruas têm nomes belgas e quis-se mesmo criar um museu belga nesse território. Também aqui os vestígios mais importantes dos colonizadores belgas são os descendentes! Com algum orgulho usam os seus apelidos tipicamente belgas, como Maes, De Gand ou Catellain. Desta forma, permanece uma lembrança difícil de apagar, da aventura belgo-brasileira do séc. XIX, que é automaticamente transmitida, como um bem, de geração em geração."

Ilhota Brasão com menção belgaConstatei, o mesmo, quando passei por lá em 2014. Encontrei a Rua Isidóro Maes, a Avenida Ricardo Paulino Maes e a Rua Pedro Castellain no centro do município. E também a Praça Charles Maximiliano Van Lede. A Superintendência de Cultura de Ilhota inaugurou em 2010 o Espaço Cultural Edith Maes, anexo à prefeitura. Dona Edith foi a primeira descendente belga da cidade a fazer a árvore genealógica da sua família. O documento encontra-se no espaço cultural. Filha de Catharina Bittencourt Maes e Carlos Leandro Maes, Edith Maes nasceu em 1930. Iniciou o seu trabalho como professora nas escolas isoladas do interior de Ilhota.

A cidade de Itajaí homenagou Félicio Maes e Marcos Castellain com uma rua com seu nome. Vi que as cores da bandeira belga foram incorporadas no brasão de Ilhota. Em junho de 1958, Ilhota emancipou-se politicamente de Itajaí. O brasão de Ilhota menciona esta data e também a data da chegada dos colonos belgas. E de vez em quando, é organizada a Expo Belga - a terceira aconteceu de 17 a 21 de novembro de 2011. A festa teve como principal objetivo resgatar a cultura, a gastronomia e as tradições da Bélgica, país de onde vieram os colonizadores de Ilhota. A edição do ano de 2012 foi arquivada pelo governo do Estado. (Lei mais)

ExpoBelga Ilhota 2012

De outro lado, alguns descendentes belgas estão bem ativos em resgatar as suas raízes e fazer comunicar as suas achadas pelo internet. O professor Paulo Rogério Maes, descendente direto da família de Eugen Maes e Leo De Coninck, mantem um blog sobre a colonização belga no sul do Brasil, que contem, entre outros, bastante fotos de descendentes, entre eles, as famílias Maes e Castelein. Ele é autor do livro "A colonização flamenga em Santa Catarina - Ilhota". Também foi criado o blog https://brockveld.wordpress.com com o intuito de coletar e divulgar informações sobre as origens da família Brockveld / Brackeveld aonde pode ser baixada uma arvore genealógica.

Com objetivo de manter viva a tradição e a cultura de suas famílias, descendentes de colonizadores belgas fundam no dia 28 de julho de 2019 uma associação em Ilhota, a "Ilha Belga".

 

 

Texto: Marc Storms

Baseado em

  • http://marusasaki.blogspot.com.br/2012/...
  • http://coloniabelga.blogspot.com.br
  • Charles Van Lede e a colonização belga em S. Catarina / Carlos Ficker. - Blumenau, 1972.
  • Colonização Flamenga em Santa Catarina - Ilhota / Paulo Rogério Maes. - 2005.
  • Movidos pela esperança: A história centenária de Ilhota / Viviane dos Santos e Elaine Cristina de Souza. - S&T Editores, 2006.
  • Dos Açores ao Zaire: Todas as colônias belgas nos seis continentes. O surgimento, a História, a comunicação / Patrick Maselis. - Roeselare: Roularta Books, 2005.
Nomes de colonos belgas em Santa Catarina

Beyts François, Klemskere

Blockveld

Bosmans

Brabander

Brackeveld Pierre, St-Pieters-Kapelle

Buelens Jean-Baptiste, Mechelen

Busso Romain, Mechelen

Castelein Charles, Leke

Christiaens Louis, Oostende

Claeys Bruno, Bassevelde

Coucke Michel, Oostende

Crabeels Emmeric, Aarsele

Declerq

Denis Isler, Jean-Nicolas, Brugge

De Coninck Leo, esposa e 03 filhos, St-Baafs-Vijve

De Courtray

De Gand Léonard, Koolskamp

de Gandt Charles, Gent

de Gandt Emile, Gent

De Laarne,

De Mol,

de Neve Ange, Bassevelde

Denys Benoit, Bassevelde

Deprez Philippe, Eernegem

Deprez Pierre, Ichtegem

De Rycke Gerard, Gent

de Sanders Ignace, Diksmuide - Vladslo

de Smedt François, Aarsele

de Smet Edouard, Assenede

Devleeschower Charles, Assenede

Devreck Reine, Brugge

De Vreese Marie Christine, Sint-Joris

Devreker Henri, Moere

de Waele Charles, Haringe

Ego Honoré, Bassevelde

Flipps

Fontaine Philippe, Brugge

Gevaert Ange, Leke

Gillis Ange, Bassevelde

Grégoire Florimond, Brussel

Hanquet,

Heytens Pierre, Dentergem

Himpens Grégoire, Aarsele

Hollenvoet François, Roksem

Hostyn Felix, Wingene

Hostyn Luis, Wingene

Houttekees Charles, Wingene

Kamer Anne, Heestert

Kamer François, Heestert

Kamer Jean, Heestert

Lebon Auguste, Mechelen

Lebon Gustave, Mechelen

Lecluyse Bernard, Assenede

Lievens Charles, Ruislede

Loens Joseph, Westkerke

Maebe Louis, Vinkt

Maes Eugène, Aarsele

Maes Léonard, Aarsele

Meeuwens François, Mechelen

Milcamps E. François, Mechelen

Milcamps Maxime, Mechelen

Mussche Judoc, Oostakker

Neirinck Jean-Baptiste, Oedelem

Neirinck Pierre, Oedelem

Opstaele Charles, Leffinge

Paul Frederic, Quevaucamp

Plancke Henri, Ichtegem

Plettincks Pierre, Tielt

Praet François, Kanegem

Ranwez Engelbert, Nalinnes ou Malines?

Sanders Ignace, Vladslo

Schloppal Charles, Keulen

Speckaert François, Sint-Joris

Sys Pierre, Brugge

Telghuis H., Antwerpen

Van Daele Charles Louis, Ruislede

Van Daele Ivo, Ruislede

Vandenbusche Louis, Lichtervelde

Vandergucht Léonard, Kanegem

Van der Heyde Hypolite, Oostende

Van der Vrecken Jean, Mechelen

Vandevelde

Van Hamme Jean-Bernard, Bassevelde

Van Heicke Jean, Meulebeke

Van Loo Pierre

Van Rie Bernard, Bassevelde

Van Steenhuyze Pierre, Tielt

Van Verren

Vanysere Clément, Oostkamp

Velghe Pierre, Aarsele

Verdueren Jean

Verlinden Martin, Mechelen

Vilain Jean Baptiste, Dour

Walthez François, Eernegem

Windey

Wismer Henri, Gralfath

Fonte: Dos Açores ao Zaire: Todas as colônias belgas nos seis continentes (1451 - 1916) por Patrick Maselis, p. 123. 

Visita a la colonia belga de Itajahy - janeiro de 1875 - Conde Charles d'Ursel

Seguido pelo meu noivo estava indo uma pequena aventura, porque, apesar das minhas informações, eu não tinha certeza de que estava no caminho certo para chegar à colônia. Finalmente, depois de um longo estágio, na orla da selva, cheguei a uma venda nos olhos, onde a primeira coisa que me chamou a atenção foi essa inscrição: "J. Maes", localizado acima da porta. A grafia desse nome não poderia me deixar em dúvida, na verdade deveria estar ao lado de um compatriota.
Caí no chão e, quando cheguei ao limiar, falei em flamengo. O efeito foi mágico: fui imediatamente cercado pela mulher, pelas crianças, pelos vizinhos; Eu tive que vir para a mesa dele e compartilhar a comida. Então eu expliquei por que ele estava lá e quando descobriram que "van hunne zaken te klappen" (para discutir os assuntos deles) estava chegando, uma alegria geral surgiu que me comoveu.
Fui levado à cabana dos mais antigos entre os colonos e lá reuni todos eles. Ao ouvi-los, olhei com prazer ao vivo seus rostos bons e amigáveis ​​de flamenco, brindados pelo sol e cansados ​​de muito trabalho, mas mesmo assim muito reconhecíveis para mim, apesar desse cenário exótico. Este rancho aberto a todos os ventos, esses trilhos de canoa e essas ferramentas de pesca, esses arcos de Índios, as plumas dos coqueiros, as grandes folhas das bananas que penetravam sob o teto, tudo o que ficava longe da cabana bem fechada, com a grande chaminé que fumegava lentamente e em cujo manto estava a louça cintilante sob o céu enevoado do céu país natal.
Eles tinham essa maneira nacional de explicar as coisas em voz alta, sob o pretexto de se tornarem melhor compreendidos, sempre terminando conversando entre si. Entre essas pessoas boas ao meu redor, havia também numerosas mulheres ... Todas essas pessoas pensam no país, falam com emoção e preservam religiosamente saus lembranças.
Eu lembro os da nova geração, embora nascidos no Brasil (desde que os colonos estão lá há trinta anos), também falam flamenco; mas as crianças não têm essa aparência robusta de nossos jovens camponeses; é porque experimentaram privações e essa pátria distante, da qual seus pais costumam falar com eles, imaginam-na vagamente como uma "terra prometida" que poucos deles um dia conseguirão alcançar.
Há vinte e duas famílias lá lideradas por um belga, o Sr. Van Lede, que comprou terras do governo brasileiro. Como sua empresa não obteve o sucesso que esperava, ele deixou a colônia e, após algumas desventuras, esses infelizes ficaram sem proteção. Hoje, desprovidos de títulos de propriedade, eles vêem que suas terras lhes são tiradas; florestas são cortadas e retiradas, sem que sejam capazes de opor-se. Tudo o que resta é a tarefa ingrata de cultivar, ao longo do rio, terras que todos os anos, na época das enchentes, são devastadas pelas enchentes. Felizmente, não é difícil obter justiça para esses pobres colonos e sinto-me autorizado a esperar que, a esse respeito, minha visita não tenha sido em vão.
Meus compatriotas queriam me escoltar de volta ao rio; um navio a vapor estava passando; Ele me levou para Itajahy, depois para Santa Catalina, onde embarquei no excelente pacote Cervantes com destino ao Rio de Janeiro.

Fonte: SUDAMÉRICA por el conde Charles d’URSEL. - París, 1879. (http://www.memoriachilena.gob.cl/602/articles-122641_recurso_3.pdf

Produção agrícola em 1850-1851 dos belgas

A estatística de 1850-1851 da Colônia Itajaí-Grande, da qual na época Ilhota fez parte e que incluia também Gaspar e Blumenau, relata os seguintes produtores belgas junto com a sua produção:

  1. Henri Plancke: 3 barricas de açúcar, 25 alqueires de batatas, 20 alqueires de farinha e 200 alqueires de arroz.
  2. Michel Coucke: 16 alqueires de batatas e 100 alqueires de arroz.
  3. Charles Van Daele: 28 barricas de açúcar, 12 alqueires de batatas, 40 alqueires de farinha, 24 alqueires de feijão, 300 alqueires de arroz, 10 mãos de milho.
  4. Charles Opstaele: 10 alqueires de batatas.
  5. Louis Maebe: 6 barricas de açúcar, 30 alqueires de batatas, 62 alqueires de feijão, 300 alqueires de arroz e 14 mãos de milho.
  6. Ignace de Sanders: 2 barricas de açúcar, 24 alqueires de batatas, 100 alqueires de arroz e 14 mãos de milho.
  7. Charles Castelein: 10 barricas de açúcar, 12 alqueires de batatas, 80 alqueires de arroz, 43 mãos de milho.
  8. Leonard Vandergucht: 8 alqueires de batatas e 2 mãos de milho.
  9. Leonard Degand: 8 barricas de açúcar, 8 alqueires de batatas e 2 mãos de milho.
  10. Gustave e Auguste Lebon: 92 barricas de açúcar e 1200 medidas de aguardente.
  11. Leonard Maes: 40 alqueires de batatas, 400 alqueires de arroz e 16 mãos de milho.
  12. Ange Gevaert: 2 alqueires de batatas e 1 mão de milho.

Há mais nomes mencionados sendo belga no censo, infelizmente é impossivel ler esses ou relacionar a um nome de um imigrante belga.

Famílias belgas em 1852 - Censo da Colônia Itajaí-Grande

A estatística de 1850-1851 da Colônia Itajaí-Grande, da qual na época Ilhota fez parte e que incluia também Gaspar e Blumenau, relata os nomes, naturalidade e estado civil dos colonos. São mencionados os seguintes (famílias) belgas:

  1. Castelein Charles, casado, 3 filhos = 5 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana, engenho de cana 1, 6 vacas e 2 bois.
  2. De Coninck Leon, casado, 2 filhos = 4 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana, 1 vaca e 1 boi.
  3. De Gand Leonard, viúvo, 1 filhos e 2 filhas = 4 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana, 1 vaca.
  4. De Sanders Ignace, casado, 3 filhos e 2 filhas = 7 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana, 1 vaca.
  5. Gevaert Ange, casado, 1 filho= 3 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana.
  6. Himpens Gregoire, casado, 1 filho e 1 filha = 4 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca.
  7. Hostin Felix, solteiro.  Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana.
  8. Hostin Louis, casado, 1 filho e 1 filha = 4 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana, 1 engenho de cana, 4 vacas e 4 bois.
  9. Lebon Gustavo, casado, 1 filha = 3 pessoas na família. Atividade estabelecimento: 15 vacas e 2 bois.
  10. Maebe Louis, casado, 1 filho e 1 filha = 4 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana, engenho de mandioca e engenho de cana, 1 vaca.
  11. Maes Eugene, casado, 2 filhos e 2 filhas = 6 pessoas na família.  Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana.
  12. Maes Leander, casado, 1 filho = 3 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana.
  13. Maes Leonard, casado, 1 filho e 2 filhas = 5 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana.
  14. Neirinck Jean Baptiste, casado, 3 filhos = 5 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca, 1 vaca.
  15. Opstaele Charles, casado = 2 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana.
  16. Plancke Henri, casado, 1 filho e 2 filhas = 5 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca, 3 vacas e 2 bois.
  17. Vander Gucht Leonard, casado, 1 filho e 2 filhas = 5 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca e cana, 1 engenho de cana, 3 vacas e 3 bois.
  18. Vilain Jean Baptiste, casado, 3 filhos e 3 filhas = 8 pessoas na família. Atividade estabelecimento: elaboração de mandioca, 2 vacas.

Há mais nomes mencionados sendo belga no censo, infelizmente é impossivel ler esses ou relacionar a um nome de um imigrante belga.

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