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Imprecisões sobre a história da colônia belga em Ilhota (SC)

Infelizmente, algumas imprecisões surgiram nos artigos publicados sobre a colônia belga. Nós os listamos abaixo. Com base em fontes originais, relatamos o que acreditamos ser a história correta. Nós também não estamos livres de fazer interpretações errôneas ou erros. Entre em contato conosco se você encontrar isso nos textos de nossa autoria. Também estamos abertos para receber outras imprecisões.

Marc Storms, 22 de novembro de 2022

Van Lede era casado?

Segundo o historiador Carlos Ficker, Charles Van Lede era casado. No livro “Charles Van Lede e a Colonização Belga em S. Catarina” (1972) consta: “Os 107 colonos foram recebidos [no dia 17 de novembro de 1844 em Desterro, Santa Catarina] pelo Consul da Bélgica no Desterro, Monsieur Charles Sheridan e uma comitiva de autoridades provinciais, além de Charles Van Lede e sua esposa” (p. 19). Fato confirmado pelo historiador Walter Fernando Piazza no seu livro “A colonização de Santa Catarina” (1982) “Desta forma, Van Lede e esposa, Fontaine e mais noventa pessoas, partiram do Desterro, com destino à vil de Itajaí e daí par Ilhota.” (p. 112)

Não há menção em documentos que Van Lede fosse casado e tenha viajado com a sua esposa para o Brasil. Ao contrário, na sua certidão de óbito, consta que ele era “celibataire”, ou seja, solteiro.

Ou será que ele tinha uma relação, mas não era casado? Há uma forte indicação. No artigo "Un Luxembourgeois explorateur au Brésil et médecin en Uruguay” de Marie-Thérèse Delmer, publicado na revista “Annales de l’Institut Archéologique du Luxembourg Arlon” (T. CXVI- CXVII - Années 1985-1986, p. 71 – 128), ela publicou uma carta escrita pelo belga L.A. Picard, com data 13 de junho de 1847. L.A. Picard escreveu sobre a sua visita da colônia belga:

Un Belge venu avec des colons sur la colonie de Monsieur Van Lede avait demandé à l'évêque de Gand un prêtre pour instruire ses enfants. L 'évêque lui répondit qu'il pouvait avoir un Jésuite. Quoiqu'il n'en eût rien coûté à Monsieur Van Lede, il refuse son consentement, ne voulant pas voir un Jésuite dans sa colonie. Comment peuvent réussir ainsi des colonies avec des hommes si peu religieux et même immoraux, puisque le directeur de la Colonie Van Lede arrive avec une concubine?

Em livre tradução

Um belga, que tinha vindo com colonos para a colônia de Monsieur Van Lede pediu ao bispo de Gent um padre para instruir as crianças. O bispo respondeu que poderia enviar um jesuíta. Embora não fosse custar nada a Monsieur Van Lede, ele recusou, não querendo ver um jesuíta em sua colônia. Como as colônias podiam ter sucesso com homens tão pouco religiosos e até imorais, já que o diretor da Colônia Van Lede chegou com uma concubina?

Entre os colonos belgas tinham ourives?

A lista dos imigrantes belgas a bordo do navio Jan van Eyck, que saiu em 23 de agosto de 1844 do porto de Oostende na Bélgica, é transcrita nas páginas 60 e 61 do livro “Colonização Flamenga em Santa Catarina Ilhota” de Paulo Rogério Maes. Lá consta que Charles de Waele e Joseph Loens tinham como profissão “ourives”. Parece incrível que dois ourives belgas migrassem para uma colônia no outro lado do mundo onde – na época – não havia menção à minas de ouro. Uma leitura atenta do documento "État nominatif des colons embarqués à Bruges, à bord du Brick Belge Jean Van Eijck, en destination pour la Province de Ste Catherine du Brésil" guardado no Arquivo Municipal da cidade de Bruges, no departamento Arquivo Moderno - VIIa Sûreté Publique, 1844, revela que eram “ouvrier”, em francês trabalhador, e não ourives.

Qual o favorecido mencionado no testamento de Van Lede?

Há confusão sobre o favorecido que é mencionado no testamento de Van Lede.

Theodor Lüders, proprietário do ‘Hotel Brésil’ em Blumenau, escreveu uma carta ao ‘Directeur de l’hôpital civil de la ville de Brugge, Belgique’ com data 4 de junho de 1901, reclamando que o agrimensor Edouard Hermans, enviado pelo hospital para medir as terras, não pagou as suas despesas de hospedagem. “Quando Charles Van Lede faleceu na Bélgica, deixou o título de propriedade de uma das terras adquiridas no Vale do Itajaí, como legado, ao hospital de Bruges.” escreve Carlos Ficker (p. 35), afirmado por Paulo Rogério Maes “Antes de morrer, Van Lede doou suas terras, no Vale do Itajaí, para o Hospital de Bruges” (p. 91). Maes é mais preciso que Ficker, mencionando suas terras e não uma das terras.  Esses detalhes indicam que o favorecido é o hospital da cidade de Bruges.

Mas no testamento de 03 de julho de 1875 de Charles Maximilien Van Lede feito em Bruges consta ‘Je donne et lègue tous mes biens meubles et immeubles que je délaisserai à mon décès, aux hospices civils de la ville de Bruges sauf les exceptions et les charges énumérées ci-après.’ Ou em livre tradução "Dou e lego todos os meus bens móveis e imóveis que deixarei em minha morte, aos hospícios civis da cidade de Bruges, salvo as exceções e os encargos listados abaixo.”

A conclusão é que o favorecido não foi o hospital de Bruges, mas os “hospícios civis da cidade de Bruges”.

Português, Brasil

Fonte dos nomes e sobrenomes

Encontramos grafias diferentes do nome e sobrenome dos emigrantes. Para os registros individuais das famílias neste site, usamos como principal entrada, as seguintes fontes para os imigrantes que chegaram com o barco:

  • "Jan Van Eyck" em 1844: o documento "État nominatif des colons embarqués à Bruges, à bord du Brick Belge Jean Van Eijck, en destination pour la Province de Ste Catherine du Brésil" guardado no Arquivo Municipal da cidade de Bruges, no departamento Arquivo Moderno - VIIa Sûreté Publique, 1844 
  • "Adèle" em 1846: o documento "Liste des personnes à qui il a été délivré des passeports gratuitement, en exécution de la Circulaire de Mr. l'Administrateur de la Sûreté publique en dâte du 2 Mai 1846, Cabinet, N° 45225 - Ville d'Anvers" guardado no Arquivo Nacional em Bruxelas, no setor 269 Émigration au Brésil. 1843-1888. Ministère de la Justice. Sûreté publique (ou Sûreté de l'Etat). Police des Etrangers, 1840-1994

Bibliografia

livros

  • Charles Van Lede e a colonização belga em S. Catarina / Carlos Ficker. - Blumenau, 1972.
  • Colonização Flamenga em Santa Catarina - Ilhota / Paulo Rogério Maes. - 2005.
  • Movidos pela esperança: A história centenária de Ilhota / Viviane dos Santos e Elaine Cristina de Souza. - S&T Editores, 2006.
  • La colonie belga au sein de la Sainte-Catherine du Brésil Impérial : Diplomatie, commerce et contrabande (1841 - 1847) / Natalia da Silva Pereira. - Dissertação ULB - Master en Histoire Contemporaine, 2013-2014

artigos

  • Sainte-Catherine du Brésil, Etablissement belge / Ch. Maroy no Bulletin d'études et d'informations de l'Ecole supérieure de commerce St-Ignace. Anvers, avril 1932, 31 p.
  • 3.3. Colônia belga p. 110-113 em A colonização de Santa Catarina / Walter Fernando Piazza. - Porto Alegre: Editora Pallotti, 1982.
  • Ilhota: Tempos e contratempos de uma colônia belga / Maria do Carmo Ramos Krieger Goulart p. 153-156 na revista Blumenau em cadernos 1982 – 5  (maio 1982) 
  • VII. Santa Catarina do Brasil (1842 - 1875) p. 119-137 em Dos Açores ao Zaire: Todas as colônias belgas nos seis continentes. O surgimento, a História, a comunicação / Patrick Maselis. - Roeselare: Roularta Books, 2005.
  • CHAPTER 5 - SANTA CATARINA p. 138 – 155 Early Belgian colonial efforts: The long and fateful shadow of & Leopold I / Robert Raymond Ansiaux. Presented to the Faculty of the Graduate School of The University of Texas at Arlington in Partial Fulfillment of the Requirements for the Degree of DOCTOR OF PHILOSOPHY. - THE UNIVERSITY OF TEXAS AT ARLINGTON, December 2006
  • Sainte-Cathérine du Brésil ou os belgas em Santa Catarina / Eddy Stols p. 22-26 em Brasil e Bélgica: Cinco séculos de conexões e interações. - São Paulo: Narrativa Um, 2014.
  • Ilhota, een Belgische kolonie aan de Itajahi-Grande/ Raymond Arren em Spaenhiers Jaarboek 2010.
  • Een Brugse kolonie in Brazilië: ‘Adieu, Vlaenderen en Braband. Wy gaen nae ’t luy Lekkerland…’Bart Demuynck p. 151-162 em Brugs Ommeland: driemaandelijks tijdschrift, 55ste jaargang, nummer 3, september 2015.