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Gheur, François (1866 - ?)

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François Gheur nasceu em Liège, na Bélgica, em 1866. Depois de estudar engenharia, começou a trabalhar em 1887 com planejamento de estradas de ferro, nesta época o transporte mais popular na Europa. Sabendo que alguns engenheiros belgas haviam sido contratados para construir estradas de ferro no sul do Brasil, decidiu deixar seus pais e irmãs e tentar a sorte neste país da América do Sul. Chegou ao Paraná, precisamente na cidade de Paranaguá em 1888 ou 1890, trazido pelo engenheiro belga Gaston de Serjat.

François chefiou os trabalhos do ramal ferroviário de Morretes à Antonina, iniciados em 1888 e concluídos em 1891. Logo após foi contratado pela Companhia de Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, aos vinte e quatro anos, em primeiro de março de 1890, onde conviveu com os engenheiros da estrada de ferro como Rodolph Lange, Gaston de Serjat e Affonso Solheid que já trabalhavam na Companhia e eram provenientes da Bélgica.

Suas funções técnicas o obrigavam a viajar por todos os lugares onde estivessem sendo construídas estradas de ferro. Foi aí que ele começou a revelar o seu lado solidário, escreve sua bisneta Aurea Gheur S. de Souza no site http://paiquelive.blogspot.com.br/2010/11/solidariedade.html. A construção dessas estradas era um trabalho árduo em que os trabalhadores sofriam toda a sorte de problemas, desde casos de febres provocadas por malária, quedas e até problemas financeiros. Aí François chegava a se destacar, pois era incapaz de deixar um operário sem ajuda financeira para comprar remédios para um filho doente, pagar um médico ou comprar comida porque o parco salário não dava para sustentar-se de acordo.

Certa ocasião François estava a serviço da Cia. de Estrada de Ferro entre as cidades de Palmeira e Ponta Grossa. Conheceu um dos contratados como turmeiro para a construção da estrada de ferro daquele trecho, o imigrante polonês Miguel Zak, que também era carpinteiro. Ele tinha um filho de nome Jan Zak, nascido em 1884, na Silésia polonesa que frequentava a oficina de ferramentas de seu pai e, para se distrair, esculpia em madeira pequenas peças entalhadas a canivete, como santos e utensílios domésticos, que eram vendidas na estação do trem.

François descobriu o talento do menino e obteve de seus pais permissão para levá-lo à Curitiba, a fim de estudar. Segundo seu filho Gastão Gheur, Jan passou a residir com a sua família, como um filho adotivo. Com uma bolsa de estudos que obteve do governo do Estado do Paraná, não só se matriculou na Escola de Artes e Indústrias, como também começou os estudos regulares. Ainda adolescente, Jan Zak mudou seu nome para João Zaco Paraná. Com bolsa de estudos do governo paranaense estudou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro de 1901 a 1903. Graças à tutela de outros engenheiros belgas que trabalhavam na ferrovia, como Afonso Solheid, e à permanência da bolsa de estudos do governo do Paraná, transferiu-se para a Academia Real de Belas Artes de Bruxelas, na Bélgica, onde estudou sob orientação do professor e escultor Charles Van der Stappen, vulto proeminente dos grupos de vanguarda belgas Lês Vingt e La Libre Esthétique.

Em 1908, destacando-se como aluno brilhante, ele obteve o primeiro prêmio nas Seções de Escultura do Natural e de Composição de Escultura. Em 1909, graduou-se com distinção pela Real Academia de Bruxelas, recebendo como prêmio especial a cessão, durante um ano, de um atelier na própria Academia, com todas as despesas pagas. Em 1910, profundamente abalado com o falecimento de seu professor Van der Stappen, retornou ao Brasil onde seguiu uma trajetória brilhante.

Graças aos engenheiros belgas que trabalhavam na ferrovia do Estado, como François Gheur e Alphonse Solheid, um outro adolescente paranaense, João Turin, partiu para Bruxelas em 1905, com bolsa de estudos do Governo do Paraná. Ele se matriculou na Real Academia de Belas Artes, onde já se encontrava Zaco Paraná, passando a estudar com o mesmo professor, o famoso Pierre-Charles Van der Stappen. A opção dos escultores por Bruxelas era pouco usual para artistas brasileiros. Depois de deixar a Real Academia, em 1909, Turin ainda permaneceu cerca de dois anos em Bruxelas, além de visitar a Itália, Holanda, Espanha e Portugal, até se transferir a Paris em fins de 1911.

François Gheur - AndersenO Museu Oscar Niemeyer em Curitiba tem um retrato de François Gheur pintado pelo artista norueguês residindo em Curitiba, Alfredo Andersen, também chamado o pai da pintura paranaense.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, François recebe uma triste notícia: o exército alemão havia invadido Liège e matado toda a sua família. Foi um triste baque para o engenheiro que havia nomeado a maioria de suas filhas com o mesmo nome de suas irmãs deixadas lá na Bélgica.

Alguém visitante pode nos informar mais detalhes sobre François Gheur? Aonde ele mora? Quando ele faleceu?  Ele deixou traços materiais no Brasil? Com engenheiro, ele construiu pontes ou edifícios?

Gostaríamos de acrescentar estas informações ao Patrimônio belga no Brasil.

Fontes: